segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

EI PROFESSOR! EM TEMPOS DE BIG BROTHER, A OBRA VIGIAR E PUNIR É MAIS ATUAL QUE NUNCA


Em tempos de BIG BROTHER, a obra Vigiar e punir é mais atual que nunca 

                                                                                                                    

POR MARLI DIAS RIBEIRO




Um clássico que ajuda a refletir em tempos de BIG BROTHER, parece ser mais atual que nunca. Vigiar e punir, livro do pensador e epistemólogo francês Michel Foucault,  é uma rica pesquisa sobre a caminhada histórica das instituições, e dos locais que aplicam a punição. Divido didaticamente em quatro partes:  o suplício, a punição, a disciplina e a prisão mostra a evolução das práticas punitivas no decorrer dos séculos e as relações de poder inerentes a cada período. Parece que o Big Brother tem uma relação com as ideias denunciadas pelo autor.
A chamada do primeiro capítulo traz a história do suplício de Damiens condenado por um crime contra o monarca. A cena descreve o castigo cruel, o uso do corpo do condenado como objeto de espetáculo, a manifestação física do poderoso sobre o fraco. A ideia do corpo enquanto objeto da punição, da ostentação dolorosa, da barbaridade, a crueldade revelando a força do poder de punir. Nesse ritual o povo aparece como um espectador do ato, e mesmo que os sentimentos fossem ambíguos, ora raiva, ora pena, devido a desproporção de algumas penas ou a presunção de que algum dos condenados fosse inocente,  as reações tardam a aparecer. O autor busca responder por quais motivos o sistema jurídico deixou de lado a punição arbitrária e passa supostamente ao objetivo de corrigir o delinquente.
Na segunda parte do livro a punição apresenta-se como uma possível prevenção ao delito. O interesse, segundo o autor, é o uso do corpo como um bem social, coletivo e sinal do castigo, não parece acontecer isso no programa Global? A economia da publicidade, o caráter individual da pena, a existência de uma mensagem simbólica  aparece como uma tecnologia da disciplina. 
Nesse sentido, o homem é uma máquina a ser treinada, um objeto a serviço da mídia. Alguns princípios nesse modelo de poder de marcam as formas utilizadas: a regra da quantidade mínima, a regra da idealidade suficiente, a regra dos efeitos colaterais, a regra da certeza perfeita, a regra da verdade comum, a regra da especificação ideal. Esses princípios foram as bases de um modelo de punição onde a economia da eficiência, a humanização, a disciplina servia como ferramentas ao poder da burguesia dominante da época e se repete na televisão de hoje.
Na terceira parte do livro a disciplina aparece como questão de destaque. Os corpos dóceis, metáfora utilizada por Foucault, são representados como objetos que podem ser transformados, treinados intensamente, utilizados na mecânica do poder com obediência e eficácia. Esse treinamento estaria indicado não apenas nas prisões, mas em todas as instituições onde pequenas relações sociais se fazem presentes como a escola, a igreja, a família, os hospitais, no que ele chama de microfísica do poder. 
Os recursos para o adestramento compõem a repetição de tarefas, de imagens, a coerção, a obediência, o controle do tempo e do espaço, o castigo, as privações, a humilhação. A disciplina ocupa-se de classificar o sujeito e normatizar as relações para hierarquizar o exercício do poder. Aparece nesse cenário o Panóptico de Bentham, figura que representa a vigilância constante do Estado, da TV,  sobre o indivíduo. A visibilidade constante, o saber estar sendo vigiado, a solidão sequestrada e olhada, evidencia a arquitetura de controle onde o homem parece ser um animal num laboratório do poder. Essa arquitetura não fica restrita apenas as prisões, mas ramifica-se nas escolas, hospitais, forças militares e outros. A máquina Panóptica segue seu objetivo como aparelho secular do poder, seus olhos, seus braços, sua máquina de vigiar e controlar na sociedade moderna e mostra-se também na sociedade atual.
Por fim, os mecanismos de punição, de controle, vigilância são muitas vezes ferramentas do exercício de poder praticado pelos grupos dominantes. O autor denuncia que os verdadeiros objetivos do ato de vigiar e punir são manipulados e utilizados para benefícios de poucos. As regras deveriam servir para a harmonia e o bem-estar da sociedade e não apenas objeto de sujeição. 
Os desafios ainda estão presentes quando enxergamos, ou não, os muitos olhos que nos vigiam, o controle constante de nossos espaços e tempos, o caos NAS ESCOLAS , e nos presídios brasileiros; o suplício dos tempos atuais. A leitura desse clássico é um convite ao debate sobre as relações de poder que exercermos em nossas instituições e suas consequências. Assim, é relevante pensar se a educação que oferecemos está a serviços de formatar corpos dóceis, treinados, obedientes, televisivos, estáticos, ou se atua para formar sujeitos críticos, protagonistas e atuantes? Resposta difícil em nossa sociedade de milhões de Big Brothers.



FOUCAULT, M. Vigiar e Punir: nascimento das prisões. Petrópolis, Vozes. 31º ed. 2006. 288p.
IMAGEM: Internet.



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